Cidadania regulada, trabalho plataformizado e a (in)competência material da justiça do trabalho

Autores

DOI:

https://doi.org/10.61541/kyeqng70

Palavras-chave:

Cidadania regulada, Entregadores, Justiça social

Resumo

A indefinição quanto à jurisdição competente para analisar demandas envolvendo motoristas e entregadores de aplicativos tem se tornado um dos maiores desafios do Poder Judiciário brasileiro. Ao afastar a competência da Justiça do Trabalho e direcionar tais litígios à Justiça Comum, o Superior Tribunal de Justiça tem adotado uma hermenêutica restritiva que repercute diretamente no acesso desses trabalhadores a direitos sociais. Este artigo parte da premissa de que a Emenda Constitucional nº 45/2004 ampliou a competência material da Justiça Laboral para abranger não apenas relações de emprego, mas também relações de trabalho lato sensu. Com base em levantamento jurisprudencial, revisão bibliográfica e no método dedutivo, o estudo analisa a ratio decidendi do Superior Tribunal de Justiça à luz da concepção de “cidadania regulada” de Wanderley Guilherme dos Santos, da Ciência do Direito Processual do Trabalho e dos aportes teóricos de John Rawls e Axel Honneth. Os resultados revelam que a interpretação restritiva do Superior Tribunal de Justiça reforça a lógica da cidadania regulada, restringindo a efetividade da Constituição de 1988 e da Emenda Constitucional nº 45/2004, que buscavam universalizar a proteção social. Assim, em vez de ampliar direitos, tais decisões intensificam a exclusão, relegando motoristas e entregadores de plataformas digitais à condição de “pré-cidadãos” e enfraquecendo o projeto constitucional de justiça social.

Biografia do Autor

  • Pedro Pucci Focaccia, Universidade Estadual Paulista

    Graduando em Direito pela Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Franca, Franca/São Paulo, Brasil.

  • Fernando Melo Gama Peres, Universidade Estadual Paulista

    Mestrando e bacharel em Direito pela Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Franca, Franca/São Paulo, Brasil. Especialista em Direito e Processo do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/Rio Grande do Sul, Brasil. Participa do Grupo de Pesquisa (CNPq) "Núcleo de Pesquisa e Observatório Jurídico: (Re)pensando o Trabalho Contemporâneo" da Universidade Estadual Paulista e do Projeto de Extensão "Vamos fazer ciência!" na mesma instituição. 

  • Profa. Dra. Ana Clara Tristão, Universidade Estadual Paulista

    Doutora em Direito pela Universidade Estadual Paulista. Professora do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Estadual Paulista, São Paulo, Brasil. Professora Assistente do Departamento de Direito Público da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Observatório Jurídico: (Re)pensando o Trabalho Contemporâneo.

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Publicado

09-03-2026

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Como Citar

Cidadania regulada, trabalho plataformizado e a (in)competência material da justiça do trabalho. (2026). Revista De Direito - Trabalho, Sociedade E Cidadania, 19(19), e192025207. https://doi.org/10.61541/kyeqng70

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